sábado, 6 de agosto de 2016

Dica do final de semana - Por Guilma Vidal Viruez

Filmes imperdíveis

Queimada!

Imagem: Cine Players


          Não é fácil de encontrar nos vídeo clubes, mas é tão bom e atual que aconselho uma busca. Trata-se do filme italiano “Queimada” (Burn), de 1969, falado em inglês, aventura histórica de Gillo Pontecorvo, mesmo diretor de “A batalha de Argel”.
          A ação se passa numa ilha fictícia chamada Queimada, nas Caraíbas espanholas ou portuguesas, em história baseada, parcialmente na história do Haiti. Marlon Brando interpreta William Walker, agente inglês enviado para fomentar a independência das colônias, com financiamento da Inglaterra. Ele chega a Queimada, escolhida por ser importante produtora de cana-de-açúcar. Seu objetivo é contatar o líder da rebelião dos escravos e oferecer o apoio inglês. Porém chega tarde e decide fabricar um novo líder. Lembra-se que conheceu, ao chegar, um jovem carregador de malas, chamado José Dolores, que se mostrou educado, mas, ao ser humilhado, deixou entrever um breve lampejo de revolta e fúria. Foi o que bastou para que Walker vislumbrasse nele qualidades potenciais de liderança. Decide então incutir no jovem idéias libertárias e para isso emprega a técnica Socrática Maiêutica, de fazer perguntas e provocar as respostas que deseja. Emprega a mesma técnica com os donos de poder da ilha, para convencê-los a facilitar a libertação dos escravos. É antológica a cena em que pergunta aos nobres: “o que é mais barato, uma esposa ou uma amante?”. Ao ouvir a resposta: “uma esposa, claro”, conduz a conversa demonstrando que uma esposa precisa ser cuidada até o final da vida e uma amante só é cara enquanto é jovem e desejada, que pode ser dispensada, sem qualquer custo e os presentes a ela oferecidos (como joias) podem ser recuperados. Tratava-se de uma analogia entre o escravo e o escravo trabalhador alforriado. Walker é bem sucedido e a grande rebelião, conduzida por ele e por Dolores é vitoriosa. Walker tenta dirigir José Dolores para servir aos seus interesses. Este recusa, mas sua falta de cultura acaba paralisando a máquina administrativa econômica da ilha. Dolores não mais interessa ao imperialismo e as classes dominantes o derrubam, em outra revolução fomentada, na qual José Dolores morre e um novo presidente é providenciado. A Walker restou o sentimento de culpa. Anos depois, retorna a Queimada para depor quem está no poder e substitui-lo por outro, mais útil à Inglaterra. Desembarcando, no porto, pensa ouvir a voz de José Dolores, mas trata-se de um rapaz humilde, com voz parecida, que se oferece para carregar as malas. Ao lembrar-se do passado, Walker se distrai e o carregador de malas o esfaqueia mortalmente, para roubar seus pertences.
          William Walker realmente existiu, foi um soldado americano que chegou a ser presidente da Nicarágua de 1856 a 1857, financiado pelo magnata Cornelius Vanderbilt. O filme demonstra a possibilidade de se produzir lideranças populares e conduzir suas ações - mesmo quando são inicialmente voltadas para o interesse do povo - na direção dos interesses dos poderosos. O roteiro é desenvolvido com perguntas (de Walker) e respostas (de José Dolores), de forma simples e despretensiosa, de forma a provocar no outro reações emocionais que levem a iniciativas revolucionárias. Queimada é um verdadeiro manual, em imagens (desenho), da técnica de doutrinação ideológica, que acaba sendo útil a qualquer governo ou ideologia. Mostra o que acontece quando se conduz as populações miseráveis e incultas para agir em benefício dos interesses estrangeiros. Embora ambientado no século XIX, Queimada se encaixa bem em qualquer outro período histórico, inclusive nos dias de hoje.
          Creiam-me, é uma aula de história.

Ficha técnica:

Direção: Gillo Pontecorvo
Roteiro: Franco Solinas (história / roteiro), Giorgio Arlorio (história / roteiro), Gillo Pontecorvo (história)
Gênero: Drama / Histórico
Origem: França / Itália
Duração: 112 minutos
Tipo: Longa-metragem

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